SAINT PETER (MAIS OU MENOS) A LA VERACRUZANA


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Hoje me lembraram da Caverna do Dragão. Maiores de trinta, como eu, certamente entenderão...


Na infância, eu e meu irmão chegávamos da escola e íamos correndo para a sala esperar pelo Caverna, melhor desenho animado de todos os tempos, e pelo almoço. Depois de tirar o uniforme, é claro, pois minha abuela nunca nos deixaria comer com ele.


A história era totalmente psicodélica e não fazia muito sentido. Uma turminha de adolescentes (e o irmão mais novo de alguém) vivia tentando escapar de um universo paralelo surreal, onde foram parar sabe-se lá como, depois que entraram juntos na montanha russa de um parque de diversões.


Tentavam voltar para casa, quase conseguiam, mas nunca rolava. Nunca. Tinham armas mágicas. E havia toda espécie de criaturas - desde animais que falavam até um buda-anão-duende que surgia e desaparecia do nada (para ajudar?) e dava conselhos-enigma. Também tinha um malvadão de um chifre só que ficava atrapalhando, um filhote de unicórnio de estimação, e por aí vai...


Não sei ao certo em que época o desenho foi criado. Mas olhando hoje, confesso que o enredo me faz pensar nos abusos de LSD dos anos 70.


Mas a verdade é que nada disso importava. A falta de respostas não me incomodava, pois eu achava que ela era temporária. Por anos, eu esperei o último capítulo. Aquele que iria explicar tudo, conectar as coisas e, então, eu saberia "onde", "como" e "por que". Afinal, ninguém iria deixar um desenho tão bom (mas meio desconexo) sem explicação, sem um final. Ainda que um mau final.


Havia até relatos mirabolantes sobre como a história terminava: o Mestre dos Magos na verdade era o Vingador disfarçado (ou até a Uni podia ser o Vingador!), eles haviam morrido na montanha russa, ou um deles morreria para salvar os demais, que conseguiriam voltar para casa.


O que eu sequer podia imaginar era que o tal último capítulo simplesmente não existia. Não passava de lenda urbana francamente disseminada num tempo em que as crianças eram mais ingênuas, quando não havia internet para desmentir o boato...


Relembrar o "caso Caverna do Dragão" me fez pensar que na vida muitas vezes também é assim. Nem sempre tem o último capítulo, na sequência, para explicar "comos" e "porquês" do que aconteceu.


Vários ciclos ficam em aberto, mesmo que outros novos comecem e os sobreponham. E acabam se perdendo no passado. Acabam sem ter acabado. E quando nos damos conta, estamos em outro lugar, com outros projetos, em outra vibe, enfim, quase vivendo outra vida. Sem entender direito como nem por que.


Talvez o último capítulo seja também sobrestimado na vida, como foi com o Caverna. Afinal, ele ainda continua sendo o melhor desenho da história para mim, mesmo sem total sentido. E talvez a vida não se trate de uma busca por respostas que estão no final de cada ciclo e aplacarão as dúvidas que nos assolam. "O tesouro está no próprio caminho e não no fim dele", diria Paulo Coelho (não resisti à citação).


Por isso estou aprendendo que talvez o segredo seja não se preocupar tanto. Não justificar tanto. Não pensar tanto. Viver o presente. É preciso conviver com a dúvida e dar um passo de cada vez. Isso é viver: há coisas que simplesmente nunca terão resposta. Não tem último capítulo, não tem nota explicativa nem manual para tudo. Só a incerteza do caminho. E é aí que está a graça!


Falando em dragões e Filosofia, let´s cook! :)


Esta ótima receita de peixe foi adaptada do ótimo Mexican Made Easy, um programa da Foodnetwork (na Sky, canal 92-1).


A receita original era com uma pimenta mexicana que nunca vi por aqui (anaheim). Pensei em fazer com jalapeño, já que a apresentadora explicou que a pimenta era bem suave e pouco picante, mas eu não tinha aqui. Fiz com pimentões vermelhos, porque tinha um saint peter lindo, e precisava comê-lo. Por essa mudança, o "mais ou menos" a la Veracruzana.


É simples e leve. Sabores beeem combinadinhos! Um mexicano meio mediterrâneo.



SAINT PETER (MAIS OU MENOS) A LA VERACRUZANA


4 filés gordinhos de saint peter (tilápia, ou outro peixe branquinho e suave)

1 lata de tomates pelados

1 cebola pequena picada

4 dentes de alho picados

1/4 xícara de alcaparras lavadas e escorridas, para tirar o excesso de sal

1/2 xícara de azeitonas verdes sem caroço fatiadas

1/2 pimentão vermelho em tiras

1/2 colher (sopa) de orégano seco

1 folha de louro

sal e pimenta-do-reino

azeite


Tempere o peixe com sal e pimenta-do-reino.


Leve-os a uma frigideira quente com um tiquinho de azeite, apenas até ficarem opacos (uns 3 minutos de cada lado). Coloque no fundo de um refratário.


Complete a mesma frigideira com mais um pouco de azeite e junte as cebolas, alhos e pimentões. Até amolecerem bem e a cebola ficar transparente.


Acrescente os tomates, amassando-os grosseiramente, louro e orégano. Tampe e deixe cozinhar por 6 minutos.


Tempere com sal e pimenta-do-reino (seja bem comedido, pois alcaparras e azeitonas já são bem salgadas).


Retire a tampa, acrescente alcaparras e azeitonas e cozinhe por mais 4 minutos.


Corrija sal e pimenta, se necessário.


Cubra os peixes com o molho e leve ao forno pré-aquecido a 180 graus, até que o molho esteja borbulhando (uns 5 minutos).


Serve de 3 a 4 pessoas.



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